quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Os 'meninos' e 'meninas' do CEDECA - Inter

Segunda-feira passada eu tive o prazer de estar na comemoração de 10 anos do Cedeca (Centro de Defesa da Criança e do Adolescente) de Interlagos. Prazer porque eu admiro muito o trabalho desta Organização; porque o mês que trabalhei lá serviu para muitas coisas - entre elas revigorar a crença na mobilização popular e alimentar meu gás, que estava a zero na época. Também porque uma das diretoras é uma das minhas melhores amigas, alguém que eu acompanho há anos, que vi crescer como mulher e profissional (antes e dentro do CEDECA), que admiro pelo comprometimento, pela capacidade política, pela certeza que tem no que faz e constrói. Foi lindo vê-la lá, no palco, falando séria sobre o CEDECA. Foi bom reencontrar as pessoas com quem convivi durante apenas um mês, mas por quem criei carinhos sem fim e muita admiração. Foi lindo ver o show do Renato Braz com as crianças do "Tambores de Lá".
Mas foi emocionante mesmo rever os 'meninos' e 'meninas' do CEDECA. São bonecos feitos de jornal, cola, tinta. Eles têm tamanho real e foram feitos em uma oficina dada por um artista plástico da região para os profissionais do CEDECA. A primeira vez que vi os bonecos foi lá na Sede mesmo, assim, meio de supetão. Estávamos organizando uma reunião com a comunidade para discutir um projeto de proteção ambiental das regiões de mananciais - regiões onde também morava uma par de gente! Entrei neste dia na Sede, de manhã e dei de cara com um bando de 'meninos' e 'meninas', a maioria sentados nas cadeiras que estavam no salão. Alguns estavam deitados ou sentados no chão, um estava em posição de 'enquadre' na parede. Foi uma imagem muito forte. E é até hoje. Sempre que os vejo sinto vontade de chorar. Para quebrar este contínuo, vai um feliz registro, de mim mesma, do lado de um deles, sorrindo.

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Nude

Cerca de 250 estudantes da Universidade de Brasília (UnB) realizaram um protesto nesta quarta-feira (11) contra o machismo. Para lembrar o caso da aluna da Uniban de São Bernardo do Campo (SP), hostilizada pelos colegas por causa de seu vestido curto, alguns dos manifestantes tiraram a roupa próximo à reitoria da UnB.

Os alunos de Brasília foram ao Salão de Atos da Reitoria para entregar ao reitor José Geraldo de Sousa Júnior um documento com reivindicações para a segurança da mulher na instituição.

O grupo considera o caso de Geisy absurdo e o comparam com situações de preconceito e machismo registrados na UnB. Um exemplo citado durante a manifestação foram os atos de violência sexual ocorridos na universidade, como o ataque a uma estudante de 18 anos, em abril deste ano.

"Acreditamos que o movimento estudantil, assim como o movimento social, não pode aceitar nenhuma forma de agressão, machismo ou preconceito", afirma Rodolfo Godoi, estudante de sociologia, de acordo com a agência de notícias da UnB.

Caso Uniban
No dia 22 de outubro, Geisy foi hostilizada por alunos da Uniban por ir à universidade com um vestido vermelho curto. Alunos pararam as atividades acadêmicas para ver a estudante, tentando fotografar suas partes íntimas e xingando-a de prostituta. No último domingo (8), a universidade anunciou que havia decidido expulsar a estudante de turismo.

A atitude da Uniban causou protestos, e fez com que a universidade revertesse a decisão. O vice-reitor da Universidade Bandeirante (Uniban), Ellis Brown, disse nesta terça-feira (10) que a aluna Geisy Arruda terá todas as garantias de segurança para voltar às aulas.

A turma de Geisy foi deslocada para um outro bloco para, segundo o vice-reitor, criar um ambiente “mais descontraído e agradável” para o retorno da estudante. Brown também garantiu que haverá atenção especial por parte da instituição para garantir a segurança dela. Ele ressaltou, no entanto, que “não se pretende criar um ambiente de patrulhamento ostensivo”.

A postura da aluna, e não o tamanho do vestido, teria sido, de acordo com Brown, o motivo da expulsão. O vice-reitor disse que a sindicância apontou que “o motivo do alvoroço todo na instituição não teria sido o tamanho da vestimenta, mas a postura que a aluna teria adotado”. Brown não explicou, entretanto, qual teria sido "a postura" de Geisy.


segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Tomada por Renato Braz

Por toda terra que passo me espanta tudo que vejo

A morte tece seu o fio de vida feita ao avesso

O olhar que prende anda solto

O olhar que solta anda preso

Mas quando eu chego eu me enredo

Nas tramas do teu desejo...




Seu corpo de tempestade
Rodou meu corpo no ar
Com mãos de rodamoinho
Fez o meu barco afundar

Eu que pensei que fazia
Daquele ventre meu cais
Só percebi meu naufrágio
Quando era tarde demais
Vi Anabela partindo
Pra não voltar nunca mais...


sábado, 7 de novembro de 2009

Que sorte a nossa, hein?

Em defesa do POP, porque, de novo: o amor é mesmo cafona!!

Porque eu AMO tudo o que ele me dá...

... e o que ele me empresta, me mostra ou mesmo só me faz conhecer.


Eu Quero o Príncipe Encantado
Hélène Bruller


Hélène Bruller nasceu em Paris, em 1968, tendo cursado a Escola de Artes Decorativas local. Iniciou a sua colaboração com Zep ao adaptar a livros de leitura várias histórias do Titeuf (até então publicado exclusivamente em Banda Desenhada). Neste livro, consegue misturar magistralmente o rigor da informação com o humor próprio do inimitável Titeuf....




Puro blablablá dos críticos... a real é que o quadrinho é genial!!
Você se identifica da primeira à ultima página.

* Você já ligou a torneira enquanto fazia suas necessidade pra ninguém ouvir o baulho delas?

* Já odiou outra mulher porque ela lhe parecia demasiadamente solta e sem frescuras? Toda linda e disposta numa trilha de doze horas em pleno sol, enquanto você transpira, perde o ar e fica de mau humor?

* Já se sentiu incomodando as pessoas no supermercado porque nunca é ágil o suficiente empacotando suas compras?

Pois é, não tem jeito, toda mulher, mulherzinha ou mulherão tem que ler; nem que for só pra rir muito e descobrir que até mesmo uma desenhista linda, inteligente e francesa age e pensa como a gente!!!

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Dos apaixonamentos


Acho que isso é de todo mundo, mas desde pequena eu tenho apaixonamentos. Um dos primeiros que eu lembro bem foi pela música tema do Sassá Mutema*. Ela me encantava de um modo que não sei explicar. Depois, bem depois, teve o Beto Candelori. Não sei se o apaixonamento foi por ele ou pela disciplina que ele dava no segundo e terceiro colegial: Atualidades. Não sei se era o jeito durão, os olhos azuis, a voz de guerrilheiro. Provavelmente era muito mais o mundo que ele me abria falando do Xanana Gusmão, do conflito Israel-povo palestino, do embargo a Cuba. Com certeza era isso. Sempre é. Apaixonamentos deste tipo são definidos, certamente, por isso: por não serem um amor à coisa em si, nem um pouco. Apaixonamentos são pela bruma que envolve a coisa, por um pedaço dela, uma sensação que ela solta. A música do Sassá era bem assim. Eu não gostava exatamente da letra - era tão pequena! Não tinha nada a ver com a minha vida aquela letra! Não gostava da voz do Oswaldo Montenegro. Não gostava tanto do personagem. Nem do Lima Duarte. Eu gostava de uma áurea, uma sensação que a canção trazia, de longe, de tão longe que hoje em dia acho que era quase do desconhecido. Muito tempo depois eu me apaixonei pelos escritos do Garcia Marquez e, depois ainda, pelo Grande Sertão: Veredas. Ainda hoje releio uns pedaços, me relaciono com eles de novo, mas é altamente casual. Os apaixonamentos são assim também: casuais. Isto é o que os diferenciam da paixão mesma e muitos mais ainda do amor. Eles passam; são definidos pela absoluta inexistência de uma continuidade real. Foi assim com Caraíva. E com o Kinho, menininho de quatro anos que conheci lá e me trazia a lembrança de algo muito conhecido e bom. Ele ocupou horas e horas de um longo janeiro. Durou um mês meu apaixonamento; voltei pra São Paulo com piolhos e, quando retornei pra Caraíva, um ano depois, ele e a Lu, sua mãe, tinham se mudado de lá e nunca mais os vi. Alguns anos depois tive um segundo apaixonamento pelo KInho ao me apaixonar pelo filme Minha Vida de Cachorro - o personagem principal, Ingmar, é a cara do bahianinho!! Foi assim também com o Cerezaró. Indío, de uma tribo Xavante. Encontrei ele apenas três dias enquanto organizava um evento para arrecar grana para defesa legal de um líder Xavante. Foi apaixonamento no ato. Era o jeito estranho que ele falava, se relacionava, me olhava. Acho que isso também define os apaixonamentos. Sempre tive eles por coisas que me aproximavam do mais estrangeiro de mim. Cerezaró era assim. Poligâmicos, diziam - os Xavantes. E seguido sempre de uma de suas mulheres que, pasmem!, não falava português. Não sei porquê escrevo isso, mas talvez seja pela saudade de apaixonamentar-me. Faz tempo...

* Eu amava
Como amava um pescador
Que se encanta mais
Com a rede que com o mar
Eu amava, como jamais poderia
Se soubesse como te encontrar...

Lembram?!

terça-feira, 3 de novembro de 2009

A cara de Finados
















terça-feira, 27 de outubro de 2009

Quién dijo que todo está perdido...

... yo vengo a oferecer mi corazón.
(Fito Paez)


Esta semana fiz dois atendimentos tocantes. Dois homens, ambos sem esperança. Um derrotado pela depressão que afunda, que escurece, que imobiliza. Outro pela obssessão que isola, aprisiona, subjuga. Os dois sem esperanças. Homens, machos, viris. Frágeis.
Um deles se compara aos meninos norte-americanos que atiram nas pessoas na escola. Diz que eles assim o fazem porque sabem que as pessoas são más, falsas. Eu não confio em ninguém. Isolado pelo nojo que sente das pessoas e o mando constante de lavar as mãos e de vez em quando até queimá-las, ele diz:
- Estou cansado de não fazer nada...
E imenda:
- É, não tem nada que dê pra fazer. - referindo-se ao seu sofrimento e tratamento.
A enfermeira, perspicaz, diz:
- Então, estamos num beco sem saída.
E, ele, dando a ela uma luz no fim do túnel, rebate:
- Beco sem saída? Não, labirinto.
O outro diz que trabalhou demais e que se teve algo que a depressão lhe ensinou é que existem 8 horas para o trabalho, 8 horas para a diversão e 8 horas para o sono. Ao fim da visita, no entando, ele diz o que mesmo, de verdade, lhe dói hoje em dia.
- Eu vou dizer pra você, Juliana... vou dizer de verdade: eu sinto falta dela. Ela não fica mais comigo.
E, quando diz, olha para a esposa. Olha com os olhos mais de amor que vi nos últimos tempos. E como há tempos não acontecia comigo, meu coração pregou uma peça e, bagunçado pelo amor naqueles olhos, deixou que meus olhos mareassem. Vergonha. Confesso que não gosto de quase chorar quando atendo. E foram os meus olhos, mareados pelo amor dele e confusos pelas voltas do labirinto do outro, que me fizeram acreditar: nem tudo está perdido.

* post semi-inspirado por este aqui:

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Djunior X O Pontinho

"Quando você toma uma iniciativa, seja ela qual for, o seu mundo parece que se transforma. Você se sente mais confiante para fazer o que antes não tinha coragem. Novas possibilidades se abrem e, de repente, aquele lugar que você sempre quis ir, já não fica mais tão longe. Então a vida fica mais clara, ganha mais sentido. E descobrir, agora, é uma palavra constante no seu dia-a-dia. Você descobre que o seu poder de decisão é muito mais forte do que imaginava. E que a palavra cuidado faz muito mais sentido quando você a transpõe para outras pessoas. Descobre que cuidar de si, é a melhor forma de continuar cuidando das pessoas que você ama. Descobre também, que se dar valor é, antes de tudo, dar valor à vida. E quando você se conhece e acredita no seu potencial, os sonhos que antes pareciam inalcançáveis, podem se tornar surpreendentemente reais. De repente, você olha pra trás e nem acredita que conseguiu realizar tanta coisa. E então descobre o melhor de tudo. Realizar seus sonhos não começa por coisas complicadas, não começa pelos outros. Começa por um ponto. Um ponto dentro de você."
Minha irmãzinha postou isso e eu achei simples e bonitinho. E nos deu brecha para várias piadas de como nossos Bichos Pretos as vezes, raivosos, pegam os nossos Pontinhos e levam eles, e batem neles, e mordem eles.
Djunior! Solta o Pontinho!! Já!!!

domingo, 25 de outubro de 2009

De torcer...

Tem coisa que é de dar nó no estômago. Daqueles nós no estômago que já começam na garganta e vão torcendo tudo. Outro dia recebi um email de doação de uma cachorrinha que foi resgata grávida. Eles diziam que ela quase morreu porque seu útero estava torcido. Fiquei com dó da cachorrinha e com a imagem forte na alma: úteros torcidos. Não somos cachorrinhos abandonados, mas muitas vezes sei bem o que é ser abandonada e de repente o útero torcer. Trash... Tem coisa que é de torcer o útero. E saber exatamente o que fazer para que essa coisa torcida se desfaça não é sempre tão fácil. E eu muitas vezes fico aqui me contorcendo pra passar e, por óbvio, tudo só piora. E a análise já há muitos anos, a macumba, minha guia, as plantas, o gato que é um fofinho. Nada disso realmente ajuda a fazer as torções voltarem ao seu lugar.
É, tem coisa que é de torcer o útero.

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Recomendo


Acabei de assistir e recomendo: A viagem do Balão Vermelho

É todo sensível, espontâneo e delicado. Te leva pro mundo simples e cotidiano das crianças. A interpretação da Juliette Binoche é impecável. Mas com certeza a parte mais incrível é o pequeno trecho das marionetes. Um Rei Dragão esconde no fundo do Oceano a amada de um jovem moço. Para salvá-la ele bola um plano infalível: secar o mar! Em uma panela coloca conchas de água do mar e vai evaporando-as, uma a uma, até, com o mar seco, reencontrar sua amada. Lindo! E, para terminar, mesmo e de uma vez, a música da cena final. Tim-tim!!


terça-feira, 20 de outubro de 2009

Desejo estranho


Só saudade de estar em um lugar estranho, com uma língua estranha, clima estranho e árvores estranhas que ficam sem folhas. Longe de todo o meu tão conhecido que hoje está um tantinho cansativo. Só isso.
* Foto tirada pelo Lê, em NYC - Dez. 2007.

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Da Coleção "Dez rápidas, soltas e pela metade"

1. ando pensando um monte sobre a ética fundamental de prestar atenção.

2. odeio quem escreve no lalalá, com um monte de frasezinhas montadas, bonitinhas feitas para ser gentil com os outros.

3. os Estados Unidos da América visitaram o meu blog 61 vezes e o Japão 32. Os Países Baixos visitaram 2 e, em compensação, a Macedônia continuou com apenas uma visita.

:(

4. aprendi, um ano depois e finalmente, a sempre tampar a pasta de dente.

5. aprendi a não deixar comida exposta de noite. Chama Eguns.

6. ando afim de sumir por ai. De vez.

7. meus dentes continuam a entortar e eu continuo com preguiça de ir no ortodontista.

8. continuo precisando dormir uma vez por semana às 20hs.

9. faltam só dois meses preu sair de férias.

10. o documento norteador do trabalho do NASF diz que eu deveria fazer de 5% a 10% de atendimento específico. E eu concordo.
(mas não conto isso pra ninguém)

quarta-feira, 14 de outubro de 2009


When you have everything


You have everything to lose...

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Sabedoria popular


"A tristeza é um bicho que parroeta sozinho,

e como róe a bichinha!

Parece rato em queijo parmesão"


Adoniran Barbosa

sábado, 10 de outubro de 2009

[ Só imagens ]

... os de casa ...


... também florescem!!




terça-feira, 6 de outubro de 2009

Saúde Mental em foco

O governo vai convocar a 4ª Conferência Nacional de Saúde Mental para discutir entre outros assuntos a questão da saúde mental no Brasil. A decisão é do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e foi comunicada pelo seu chefe de gabinete, Gilberto Carvalho, aos representantes da Marcha pela Reforma do Sistema Psiquiátrico, realizada hoje (30) na Esplanada dos Ministérios, em Brasília.
O grupo entregou a Gilberto Carvalho um relatório com as denúncias de mortes de pessoas com transtornos mentais nas unidades de internação por uso indevido de medicamentos.
De acordo com a secretaria-executiva da Rede Nacional Internúcleos da Luta Antimanicomial (Renila), Nelma Melo, Carvalho entendeu a urgência de se tomar as medidas para combater o problema "das mortes nos hospitais psiquiátricos".
Segundo ela, a expectativa é de que a conferência seja realizada em 2010. O último encontro nacional para discutir a assistência à saúde mental foi realizado em 2001.
Durante a marcha, os manifestantes pediram a humanização das políticas públicas para o tratamento de 23 milhões de brasileiros com distúrbios mentais.

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Tem de ter peito!!

By me in NYC

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Quieta por um tempo...

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

A nossa hora, há três anos

Que a sorte da gente
é a gente que faz...
(Paulinho da Viola)
Não sei se é porque eu terei uma afilhada em breve e assim vou me sentindo crescida, com tempos passados tantos que já dá pra ser tia. O fato é que ultimamente tenho pensado muito numa espécie de 'balanço' da minha história. No entanto, acho que isso é coisa pra outro escrito, porque hoje o que quero falar é, na realidade, algo bem simples. Quero falar sobre as horas que são nossas - como já dizia Guimarães -, de mais ninguém. Mais do que isso, queria falar destas horas que são nossas porque as fazemos nossas, só nossas. Quero falar do destino quando o pegamos na mão e o fazemos nosso. Quando nos mantemos a altura dele, como gosta de dizer o Teixeira. Ou, ainda, quando amamos nosso destino - amor fati, como diria o Nietzsche. Essa filosofia tem uma dupla mensagem. Primeiro de nos incitar a apostar e investir na vida assim como ela é. Sem buscar aperfeiçoamentos, transcendências, desculpas, espiações, consertos. Depois, obriga a nos mantermos dignos de vivermos o que nos acontece. Jogarmos o dado do destino e seguirmos o jogo, acreditando que tudo aquilo que nos acontece é da ordem do inevitável e que, de alguma forma, tem algo a ver conosco, com algo que é comum a nós mesmos. Mas não é para falar dessa filosofia (que já falei um tanto aqui) que escrevo este post. É para falar de amor e de encontros. Para falar de um encontro que aconteceu há exatos três anos e que parecia uma desgraça. Desgraça, assim, como dessas armadilhas que o destino prega e que, diria o censo comum (assustado censo comum), às quais deveríamos evitar. Pois o destino me fez encontrar algo raro, que parecia lindo e único, mas este algo estava de partida, com data pra terminar. Uma das primeiras coisas ditas neste encontro foram as palavras de despedida, o anúncio do fim: - Eu vou embora, daqui a cinco meses. Com certeza. E todo mundo, absolutamente todo o mundo me setenciou: Ou você sai dessa, ou vai se enroscar na pior coisa da sua vida. Você não pode se envolver. Pra quê?! Mas quando eles (todo o mundo) me disseram, envolvida eu já estava. Porque quando o destino quer ser certo-certeiro, ele é também ligeiro. E a gente pensava que este encontro tinha que ter acontecido em outro tempo. Como se isso fosse mesmo coisa que o destino devesse escolher. Rá! O destino já tinha feito o seu trabalho, muito mais que bem feito!! Como podíamos ousar criticá-lo?! Nós que éramos os covardes, nos mantendo muito abaixo de tudo que nos acontecia naquele momento. Mas de algum jeito enfrentamos o destino. E mesmo na confusão da dor de tentar entendê-lo, fomos indo; muitas vezes de um jeito muito tôrto. Muitas vezes apenas do jeito que dava para ser. E foi feio muitas vezes. Mas, na realidade, muitas mais foi muito bonito. E tinha este desejo de estar junto que fazia estar separado ser muito mais custoso. E com o tempo a gente foi parando de brigar com o nosso próprio desejo e parando de culpar o destino. E então a gente fez daquela qualquer hora (daquela pior hora) a nossa hora. E cá estamos: na hora que pode ser qualquer uma, porque é nossa e feita pela gente. Construída muitas vezes a cada minuto, descontruida outras vezes em um segundo. Nossa hora, há três anos. Te amo!
Aquele encontro nosso se deu sem o razoável comum, sobrefalseado, como do que só em jornal e livro é que se lê. Mesmo o que estou contando, depois é que eu pude reunir relembrado e verdadeiramente entendido — porque, enquanto coisa assim se ata, a gente sente mais é o que o corpo a próprio é: coração bem batendo. Do que o que: o real roda e põe diante.

— Essas são as horas da gente. As outras, de todo tempo, são as horas de todos — me explicou o compadre meu Quelemém.
GUIMARÃES ROSA

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Aproximações

Dia 23: aniversário dele e início da primavera!!!




Sessão: Rosinha e a orquídea

terça-feira, 15 de setembro de 2009

"O olho é destinado a ver as coisas.
A alma vive para o seu próprio deleite"
Rumi

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

Vermelhos beijos

Gostar de ver você sorrir...
Gastar das horas pra te ver dormir...

domingo, 13 de setembro de 2009

Passos


“Isso é amor: voar para um céu distante;

Fazer uma centena de véus cair a cada instante.

Primeiro, deixar a vida seguir seu curso.

E, finalmente, dar um passo sem os pés.”


Rumi

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

Quem já passou por essa vida e não viveu, Pode ser mais, mas sabe menos do que eu, Porque a vida só se dá pra quem se deu, Pra quem amou, pra quem chorou, pra quem sofreu, Ah, quem nunca curtiu uma paixão nunca vai ter nada, não. Nao há mal pior do que a descrença, Mesmo o amor que não compensa é melhor que a solidão, Abre os teus braços, meu irmão, deixa cair, Pra que somar se a gente pode dividir, Eu francamente já não quero nem saber, De quem não vai porque tem medo de sofrer, Ai de quem não rasga o coração, esse não vai ter perdão...

'Como Dizia o Poeta'
Vinicius de Moraes / Toquinho

domingo, 6 de setembro de 2009

Aqui onde eu estou...

Regozijar-se é estar alegre pelo que somos, por ter chegado onde estamos. [ DELEUZE ]


Este blog começa com esta frase. E eu realmente prezo por ela. Eu acredito que viver plenamente é manter-se à altura dos acontecimentos e sempre avaliando "o que eu estou mesmo fazendo de mim mesma?". Três coisas especiais e fora do comum acontecem nos próximos meses que me fazem pensar que eu me orgulho e sou feliz por ter chegado onde eu estou.
A primeira delas acontece sábado que vem, dia 12, no Sedes, às 9h30. Darei uma palestra sobre Saúde Coletiva na Jornada de Reich e, apesar de achar que tem gente muito melhor para falar sobre isso, eu vou lá, infinitamente agradecida pelo convite.
A segunda coisa é o lançamento (ainda sem data) do livro do CEDECA Interlagos sobre os 18 anos do ECA. O livro conta 18 histórias de 18 jovens que nasceram junto com o ECA. Eu fiz o comentário sobre o direito à saúde, um dos textos da segunda parte do livro onde diversas pessoas comentam alguns direitos colocados pelo ECA (à educação, cultura etc.) a partir das falas dos jovens.
E a terceira coisa é o também lançamento do livro "CONEXÕES: saúde coletiva e políticas de subjetividade" do grupo de pesquisa homônimo lá da UNICAMP, do qual eu fiz parte em 2006/ 2007 quando ainda nem tínhamos nome, muito menos livros. Orgulho imenso de mim mesma e dos meus meninos!!
Para compartilhar e adiantar, ai vai o texto feito para o livro do CEDECA.


Políticas de Saúde e Saúde Coletiva: um campo possível de produção de modos de viver mais autônomos, alegres e criativos



A saúde não espera o próximo mês. (Lila)


A organização do Sistema Único de Saúde brasileiro (SUS) tentou condensar os anseios acerca do ideal de saúde pública para o país. O SUS foi formalizado no ano de 1988, junto com a Constituição Federal e é fruto de lutas históricas pelo acesso de todos, sem discriminações, a serviços de saúde gratuitos e de qualidade. Ao falar de acesso universal e de qualidade na perspectiva do SUS temos que nos remeter, também e necessariamente, a outras duas idéias que organizam o sistema: integralidade e equidade.

A noção de integralidade visa garantir que o conjunto dos serviços que compõem o sistema de saúde, bem como cada ação dentro de cada serviço leve em conta a totalidade das necessidades de saúde e de vida de quem procura assistência. Ou seja: a cada intervenção é preciso levar em conta que as pessoas carregam consigo, para dentro do serviço de saúde, questões biológicas, psíquicas, sociais, culturais, econômicas etc. e que é preciso mapear esta diversidade de necessidades e responder a cada uma ou a todas elas a depender das prioridades e entradas mais possíveis para cada situação. Do mesmo modo, o sistema é organizado levando em conta que um único serviço não pode dar conta da multiplicidade de necessidades que temos e, portanto, é preciso que haja uma organização de diversos serviços, cada um responsável por um nível de atenção à saúde – entre outros contamos hoje com Unidades Básicas de Saúde, Ambulatórios de Especialidades, Centros de Atenção Psicossocial, Centros de Referência em DST/ AIDS e Saúde do Trabalhador, além dos Hospitais Gerais e de Especialidades.

A noção de equidade, por sua vez, visa garantir que o sistema funcione a partir do princípio organizativo de que é necessário tratar diferentemente pessoas com possibilidades de acesso e necessidades diferentes. A partir deste princípio, os serviços devem dar oportunidades de acesso diferentes conforme a maior ou menor necessidade de cada pessoa ou família. Pessoas com condições reduzidas de acesso devem tê-lo facilitado pelo Sistema. Também o acesso deverá ser priorizado para aquelas situações de saúde mais graves e emergentes.

Nas falas dos dezoito jovens entrevistados, no entanto, vemos, a princípio, um quadro bastante diferente do quadro ideal apresentado acima: parece não haver acesso universal, nem tampouco de qualidade, muito menos uma assistência que leve em conta a equidade ou a integralidade. Vemos sendo realizada uma clínica extremamente degradada (Campos, 2003), bem como não há nenhuma postura de acolhimento frente ao sofrimento de quem procura os serviços-SUS.

Como trabalhadora deste Sistema e fiel defensora da sua capacidade de produzir coletividades mais alegres e justas, confesso que ler todos estes trechos me deixa profundamente incomodada e entristecida. Poderíamos contextualizar estas falas, conhecer a realidade territorial de onde elas partiram, fazer um mapeamento micropolítico e institucional dos serviços aos quais elas se referem. E acho mesmo que este tipo de análise é fundamental para qualquer tentativa de melhorarmos os serviços e redes locais do SUS. Afinal, se continuarmos a chapar as leituras sobre nosso sistema de saúde continuaremos a produzi-lo de forma burocrática, centralizada, homogeneizada e, muito provavelmente, continuaremos sendo incapazes de responder às necessidades locais de saúde. No entanto, aqui não será possível empreender tal tarefa.

Talvez com único intuito de não cair em uma fala que discorra sobre a noção de direito à saúde a partir do viés da falta – e para não falar de direitos unicamente a partir da noção de direito violado – deixo aqui uma contribuição que não visa desculpar o SUS por ter produzido experiências como as relatadas neste livro, mas que visa abrir algum caminho de potencialização de nosso Sistema de Saúde. Isto porque é preciso resistir ao discurso da resignação ou da denúncia servil. Abaixo-assinados não nos ajudarão a mudar o SUS, nem tampouco reclamações a ouvidorias mesmo que com queixas bem fundamentadas!!

O SUS é a melhor formalização (até os dias de hoje) de nossas idéias de como bem organizar a assistência à saúde no Brasil. Reflete o ideal de que todos devem ter assistência gratuita de qualidade, mas também produtora de coletividades mais cidadãs e capazes de produzir, de forma autônoma, sua própria existência. Neste sentido, penso que nós, trabalhadores e usuários do SUS, vivemos com uma dupla tensão. É fato que é preciso oferecer assistência de qualidade, não podemos fazer saúde de pobre para pobre! É preciso sim dar possibilidade de que a população como um todo (não apenas aquela que paga de forma particular por serviços de saúde) tenha acesso à assistência médica, psicológica, nutricional etc. de qualidade e com resolutividade, que tenha acesso a serviços de especialidade e exames quando realmente necessário, a hospitais funcionais e competentes e assim por diante.

No entanto, também faz parte do plano de se pensar uma saúde coletiva que ajude na potencialização das coletividades, subverter muitas das lógicas que ainda comandam o campo da saúde hoje em dia. É preciso subverter a lógica da especialização extrema da atenção e conseqüente fragmentação absoluta do corpo, do indivíduo e do sofrer. É preciso enfrentar a medicalização intensa da vida e das questões existenciais. É preciso, sobretudo, fazer do campo da saúde um campo de produção de vidas mais autônomas, críticas e criativas e não uma máquina de produção de dependência e adaptação. E é aí que encontramos, como já dito, uma dupla tensão. Muitas vezes, tendo como ideal o tipo de assistência que encontramos nos convênios ou serviços particulares, as pessoas exigem do SUS fragmentação, medicalização, alienação do seu próprio corpo e saúde. E nós, trabalhadores, teríamos que responder com muito acolhimento e oferecer espaços onde fosse possível realmente resgatar a autonomia, a criatividade, a cidadania e o desejo.

Infelizmente – e aqui acabo como não queria começar – nas 18 falas que acabamos de ler não encontramos nem uma coisa, nem outra. Não vemos a satisfação por ver seu corpo embrenhado em fragmentações hightec e chek-ups semestrais, mas também não vemos produção alguma de autonomia e vidas mais alegres. Faz-se necessário, portanto, começar novamente do começo, rechaçar o ressentimento e a indiferença e lembrar que o SUS é construído por todos e a partir do princípio da participação social. E que se ele está assim, tão capenga quanto nos contam nossos 18 jovens, é nossa obrigação fazê-lo melhor.


Referências Bibliográficas
CAMPOS,Gastão Wagner de Souza. SaúdePaideia. SãoPaulo, HUCITEC, 2003.

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

Desabafo

Escrita de desabafo e elaboração, por um dos dias mais intensos dos ultimos tempos. Começou com um sonho difícil demais; uma chuva torrencial; um miudinho usuário de crack tocando o terror; uma situação limite, cheia de cheiros, sem luz, sem cor e uma situação de pós-limite, com muito amor, inteligência, personalidade. Eu já falei isso aqui, mas preciso sempre reforçar: meu trabalho é um presente que me deram. Ele me cansa, me aturde, as vezes me esgota mesmo, no entanto, nunca deixa de me levar a lugares que nunca iria sem ele, a experenciar afetos que nunca sentiria, a dividir com pessoas inusitadas relações de acompanhar e enfrentar que nunca sonharia aconteceriam.

Essa foi a semana das situações limite. Acompanhei desde segunda a alta - do Pronto Socorro - negociada por nós para o Marcos, o drama da sua família, o seu próprio drama. Ele pode estar adiantando a tão angustiante espera da morte, ele pode estar apenas tomado pela loucura que nos causa o crack, ele pode estar querendo distrair todas as outras tragédias - talvez piores - da sua família, o fato é que acompanhá-lo nessa aventura (seja ela qual for) é hard core!!

E dai, quando parecia que só a situação dessa família era o suficiente, a notícia: a Bianca está querendo se matar! E eu sabia que não devia ser bem isso, mas é minha função ir lá acalmar as pessoas e poder criar um espaço de escuta real para a angustia dela. E lá fomos nós: mais irmãos usuários de drogras, mais favela, mais roubo de dihnheiro. E uma adolescente cheia de capacidades e recursos pirando pela família.
Para ela a pedra serve para acalmar. É o lugar dela de (des)piração. Sim, pedra, mas não daquelas outras que o irmão usa. Pedra dessas grandonas, nas quais dá pra sentar, lá no alto da favela, bem no alto. E eu iria visitá-la ontem, mas a chuva intensa impede de chegarmos lá, bem no alto da favela, perto da sua pedra-calmante, onde ela mora. E eu acho mesmo que é isso que faz com que a Bianca tenha medo de pirar de vez: a distância aparentemente intransponível que fica entre todas as suas capacidades e o alto da favela, cheio de pedras.

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

Nada nos falta quando entendemos que, para que haja a geração do novo, basta nos aprofundarmos no nosso próprio tempo – um tempo que maquina silenciosamente cada modificação em nós.
Amauri Ferreira

Fissurada pela redução!!

Nas últimas semanas eu tenho sido arrastada para o mundo das pedras, das bocas, da fissura, dos cachimbos e dos baques. Nessa onda acabei indo estudar mais algo que sempre me interessou, mas que nunca tinha me fissurado tanto como agora: a lógica e as estratégias de redução de danos. Ainda vou escrever mais longamente sobre essa viagem que tenho feito com os usuários pesados de drogas pesadas, por enquanto fica a dica:



A ABORDA é uma ONG que trabalha com a lógica da redução. Seu site é ótimo e traz quase todas as informações essenciais para quem quer trabalhar com essa questão. Ai vai o "Quem somos" do site e pra quem quiser mais: http://www.abordabrasil.org/.


Um pouco de história.

Em 1989, a cidade de Santos, que tinha como secretário de saúde o sanitarista David Capistrano, vê surgir no Brasil uma das mais ousadas e polêmicas estratégias de promoção de saúde já implementadas: a troca de seringas como forma de prevenção da Aids, hepatite C e outras doenças infecto-contagiosas. Utilizada em alguns países da Europa havia já dez anos, estas ações tinham como objetivo prevenir doenças que podiam ser transmitidas por meio do compartilhamento de seringas por parte de pessoas que usam drogas injetáveis. A iniciativa santista sofreu severa oposição, resultando inclusive na detenção de alguns dos coordenadores do programa.

Dali até que ações semelhantes viessem a ocorrer de modo mais continuado, passaram-se alguns anos. Em 93, um evento internacional sobre Aids em Santa Catarina instiga várias ONGs a buscarem a implementação de ações de RD. Mas a primeira cidade a garantir sustentabilidade foi Salvador, em 1995. Em 96, foi a vez de São Paulo, Porto Alegre, Cuiabá e Rio de Janeiro. Não demorou muito para perceber que a população que se pretendia atingir dificilmente procuraria os serviços de saúde convencionais. Buscando a efetividade das ações, pessoas que usavam drogas tiveram de transformar-se em trabalhadoras e trabalhadores de saúde, procurando pelas rodas de uso nos locais onde estas aconteciam. Iniciava-se a escrita de uma nova página na história da Saúde Coletiva no Brasil.

Em 1997, é criada a ABORDA, durante o 2º Congresso Brasileiro de Prevenção da Aids, em Brasília. Os objetivos, daquela época até os dias de hoje, não mudaram muito: a implementação e o fortalecimento da Redução de Danos como política pública, e a defesa da dignidade do redutor de danos.

Nos últimos 10 anos, houve grandes transformações nas perspectivas de Redução de Danos. Inscritos no cotidiano do SUS a partir da necessidade de enfrentamento das formas de transmissão do HIV ligadas ao compartilhamento de equipamentos de uso de drogas injetáveis, os redutores de danos contribuíram significativamente na luta contra a Aids, e abriram um leque de novas possibilidades na forma de se fazer e pensar saúde no Brasil. A Redução de Danos, hoje, constitui-se em um conjunto de políticas públicas ligadas ao enfrentamento dos eventuais problemas relacionados ao uso de drogas, articulando distintas realidades: prevenção ao HIV/Aids e hepatites, promoção integral de saúde às pessoas que usam drogas e diminuição da violência. Tal articulação consiste no apoio/incentivo ao protagonismo das pessoas que usam drogas, na busca pelo cuidado de si e manejo do seu uso de drogas.

Hoje, a ABORDA está presente em quase todos os estados brasileiros, do Rio Grande do Sul ao Amapá, contando com a força de centenas pessoas ligadas a dezenas de programas governamentais e não governamentais de Redução de Danos, e constituindo-se na grande roda de articulação política em defesa da Redução de Danos e dos Direitos Humanos das pessoas que usam drogas.

A ABORDA busca destacar a importância de redutoras e redutores de danos, defendendo a melhoria de suas condições de vida e trabalho, e contribuindo para sua organização e capacitação técnica. Além disto, defendemos a ruptura com paradigmas ora instituídos no que tange aos discursos sobre drogas e pessoas que as usam através da articulação com movimentos sociais, universidade e Estado, contribuindo para a construção de políticas públicas diferenciadas, abertas à participação cidadã de populações sobre as quais recaem os efeitos de dispositivos que muitas vezes impedem seu acesso aos mais básicos direitos.

segunda-feira, 31 de agosto de 2009

FIM no CEM

Ontem eu tive o prazer de passar por essas situações nas quais eu me lembro na pele da alegria de ser brasileira e morar em uma cidade tão cheia de coisas acontecendo como São Paulo. Era a busca corriqueira dos domingos por um lugar para tomar uma cerveja gelada. Minha irmã então disse de um desejo simples de resolver: vamos num lugar que tenha um sambinha? Fomos.

Foi então, chegando lá, que eu lembrei que o CEM - ou mais conhecido como bar da Meirinha - estava tendo o FIM: Festival Informal de Marchinhas. Pois é! Chegamos lá e já sentimos a agitação: torcidas organizadas, apresentador, cantoras, confetes!!

O FIM que está rolando na Meirinha é a primeira edição de algo que se deseja role todo ano - a seguir o exemplo do FIM do Rio. É bem simples na verdade: os compositores inscrevem suas marchinhas e, durante um mês, aos domingos, as marchinhas são apresentadas ao público, passam por votação e são classificadas (ou não) para a final. Já ocorreram quatro domingos com 12 marchinhas cada, três são classificadas para a final a cada dia. As primeiras três colocadas ganharão um engradado de cerveja e $300,00, $200,00 e $100,00 respectivamente.


Mas, na realidade, não é o processo e as regras que importam e sim a criatividade, a brasilidade e a alegria coletiva que estão rolando na Meirinha nestes dias!! Dá orgulho de ser brasileiro, de ter carnaval, de ter nascido na terra do samba! As marchinhas ontem falavam de tudo um pouco: do carnaval e seus amores, de política, de samba, de boemia, de cachaça. Uma graça!!


As torcidas entregavam as letras, faziam boca de urna descarada, provocavam risos e aglomerações. Eu votei na marchinha "Ô Sarna!", homenagem bem humorada e nada ressentida à filha-da-putagem do Sarney. A torcida, boa de marketing, entregou bigodes que fizeram o maior sucesso!!

Vai ai a foto e a letra e fica a dica!!

Sou sobrinho do Sarney

Sou primo da Roseana

Onde eu trabalho já nem sei,

mas levo vida de bacana!!




Grande Final do Festival Informal de Marchinhas no Clube Etílico Musical

Domingo próximo, véspera de feriado: 06/09

A partir das 19hs

O CEM fica na R. Fradique Coutinho entre a R. Wizard e a R. Aspicuelta - portão azul atrás do trailer de cachorro quente.

domingo, 30 de agosto de 2009

Je ne sais pas


Uma boa tragada

Apenas dois comentários antes da leitura:
1- Infelizmente, assim, sem muita crítica, eu adoooro a lei e odeio cigarros.
2- Infelizmente, também e mais uma vez (com muita crítica), eu sou meio carrodepente.
Sexta-feira, 28 de Agosto de 2009

Da lei anti fumo para a lei anti carro
Talvez devesse omitir esse pequeno comentário diante dos fatos sobre a lei anti fumo no Estado de São Paulo, mas... Não sou fumante e confesso que não ter cigarros por perto é na sua esmagadora maioria das vezes um alívio. Entretanto uma coisa é buscarmos de modo coerente e amigavel maneiras de conviver com os diferentes hábitos (vícios) alheios, e outra é implantar atitudes um tanto fascistas de criminalização dessas mesmas atitudes. Explico. Parece-me que a grande falha dessa lei pensada por esses fanfarrões deixa escapar outros fatores importantes no direito a liberdade, mais do que simplesmente evitar o malefício do cigarro à saúde de todos. Claro que cigarros são nocívos, quem duvidaria disso? Não tenho dúvida também que se nada fosse feito até hoje sobre esses espaços coletivos, se acorodos sobre a convivência não fossem discutidos, ainda muitos fumantes estariam - na verdade, alguns ainda o fazem - dando suas baforadas dentro de banheiros públicos, elevadores, onibus, metrô, na mesa ao lado enquanto você saboreia seu café da manhã, etc. Isso sem falar nas malditas bitucas emporcalhando tudo. Até hoje conheci uma única pessoa que guarda suas bitucas para joga-la no lugar apropriado: no lixo. O que me deixa bastante atento não é bem isso, mas os modos de controle e vigilância implantados por essa lei. Um dos argumentos mais utilizados é que para o beneficio coletivo, todos devem se responsabilizar pelo controle da lei e denunciar o estabelecimento que não cumpri-la. Num primeiro momento me pareceu algo sem muita importância, afinal as pessoas têm mais com o que se preocupar, certo? Médio. O clima que se instala nesse procedimento me parece não ser bem o de responsabilidade, mas da pura delação, da cínica caguetagem. A relação proposta pelo Sr. Picolé de Limão Serra é a do dedo duro. Pense nisso. Porque não conversar com as pessoas antes de incriminá-las? Porque não solicitar ao responsável pelo estabelecimento alguma atitude se outro cliente o está incomodando? Porque não pensar em algo, como uma conversa direta quando a situação se fizer necessária? Nada! O lance é um tipo de entreguismo alheio, a caguetagem deslavada, o clima de hostilidade vai se instalando e todos vão expondo suas paranóias e seus "poderes" de cidadão. Controle! Fiscal para quê? Todos somos polícia! urgh. Pois bem prezad@s, me parece que esse é o interesse no modo de exercer esse debate. Não estou dizendo aqui que nada deve ser feito, mas incentivar a população a dedar o comportamento alheio me parece algo equivocado. Recomendo uma olhada no texto do Bruno Ribeiro sobre a República dos Alcaguetes. Outro ponto. Estão falando sobre melhorar o ar da cidade com isso. Um tanto cômico se levarmos em consideração a frota de veículos automotores na cidade de São Paulo. Melhorar o ar da cidade? Eu tenho uma sugestão. Vamos aumentar o rodízio de carros! Vamos proibir a circulação de carros 24 horas em alguns lugares. O rodízio deveria se estender por pelo menos 3 dias da semana inteiros. Nada dessas insignificantes 3 horas nos horários de pico uma vez na semana. Pensa em comprar outro carro para fugir do rodizio? Estaria ferrado porque iriamos criar modos de controle de um número limitado por carros em casa e por proprietários: quanto mais carros, muitos outros impostos. Vai tentar colocar seu carro em um estacionamento particular? Vai usar o nome do filho, vizinho, amigo? Sem chance! Daremos prêmios para denúncias anônimas para combater essas atitudes. Você não estará seguro nem em sua casa! Sim, nosso objetivo seria seu bolso, e claro, a melhoria do ar na cidade. Deveria ser proibido ir para o centro da cidade de transporte particular. Deveriamos aumentar consideravelmente o ipva e outros impostos. Deveriamos criar mais impostos para os 800 novos carros que diariamente ganham as ruas de São Paulo e que esse dinheiro fosse revertido para os hospitais públicos no tratamente das centenas de pessoas vítimas diretas do malefícios dos veículos. Deveriamos começar a pensar em processos contra a GM e a Toyota por continuarem a fabricar máquinas que poluem, matam e prejudicam a vida coletiva nas cidades e no campo. Deveriamos pedir indenização ao Estado por ser complacente ao lobby das montadores. Deveriamos um monte de coisas, percebem? O fato é que hoje se você é proprietário de um utilitário na cidade de São Paulo você faz parte do problema. Lembra da lei seca? Porque não começarmos a deletar os bares que permitem motorista beberem e depois sairem com seus veicúlos? Tudo com o auxilio desses malditos serviços de manobristas! Deveriamos pensar numa forma de criminalizar essas ações do mal uso do veículo e pensar na melhor qualidade de vida de toda a população! Ops! O que? Você não pode viver sem seu carro? Ele é fundamental? Veja que coincidência: os fumantes também não podem parar com seus vícios. Eles dependem do cigarro, você do seu carro. Radical demais? Talvez, mas o fato é que existem tantas incoerências nessa lei anti fumo (atitude/propaganda eleitoreira, nenhum esclarecimento sobre o lobby das plantações de tabaco, o que acontece com os impostos dos cigarros, etc.) que fica difícil avaliar o melhor modo de melhorar a saúde da população sem colocar outros elementos em debate. Como por exemplo o uso do carro, a privatização dos espaços públicos, mobilidade urbana, etc. Não sou necessariamente contra carros, não sou primitivista, contra as tecnologias, mas sou contra o mal uso deles, da carrodependência. Estou interessado nos modos de melhorar, ampliar, incentivar a cooperação, convivência e liberdade. Estamos prestes a atingir a marca de 300 km de engarrafamento na cidade de São Paulo. Devemos considerar isso ou pessoas como eu, que não tem carro, e outras que tentam usar o bom senso, também estarão prejudicadas (mais!) pelo seu "direito" de fazer o que quiser. Então pergunto: o que significa liberdade para você?

Postado por Alessandro de Oliveira Campos (ver 'outras coisas')
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Cuide de você

“Cuide de você”, de Sophie Calle no Sesc Pompeia.
R. Clélia, 93, Pompeia, tel: 3871-7700, de ter/sáb das 10h às 21h e domingos e feriados, das 10h às 20h.
Até 07 de setembro (última semana!!!). É de graça.
Por Tati Bernardi

Quando soube que uma artista plástica francesa inconformada com um pé na bunda por e-mail resolveu transformar sua dor em arte (o que salva muitas pessoas de cometer crimes e eu me coloco nessa lista) e criou a exposição “cuide de você”- na qual 107 profissionais das mais diferentes áreas interpretam o tal do e-mail bomba do cara- quis correr pra ver.


Depois, quando vi a entrevista do “cara” (o escritor Gregoire Bouillier) na FLIP, e ele dizia que “qualquer pessoa tem o direito de amar e deixar de amar”, achei essa tal de Sophie Calle uma mala e resolvi que não iria ver a exposição. Todo mundo leva um “passa fora” pelo menos uma vez na vida e poucos têm a sorte de um e-mail escrito por um escritor. Mas o Sesc Pompéia (caiu o acento dele ou não?) fica muito perto da minha casa e acabei essa semana, pra minha grande sorte, dando um pulo despretensioso lá.

Foi com grande emoção que li boa parte das “interpretações” dadas à carta e voltei a adorar o que Sophie Calle fez com sua tristeza. Conforme ela também diz em sua entrevista na FLIP “eu tenho o costume de transformar em trabalho o que me deixa infeliz” e ainda: “me apaixonei tanto por esse projeto que tive receio de voltar com Gregoire e estragar tudo”. Sei exatamente como é começar um projeto e gostar mais dele do que da pessoa que o inspirou. Cada vez acredito mais naquela máxima freudiana (ou metida a freudiana, nunca sei direito) de que a mulher ama, na verdade, o próprio amor que sente (ou a dor, a falta de amor, e por ai vai).

O e-mail do namorado desistente explica, com erudita pretensão e de forma bastante auto-centrada, que ele não está pronto para amar alguém com exclusividade, que sua falta de capacidade para ser feliz, sua angústia, faz com que ele queira procurar outras mulheres. O “desassossego” estava voltando, portanto, já que ela queria ser amada preferencialmente, era melhor ele se retirar. Ele agradece o amor benéfico que ela sente por ele, diz que a ama também, e encerra com a pior coisa que um ser humano pode dizer para outro que é “cuide de você”.

O que Sophie consegue com esse trabalho, além de cuidar de si através das respostas (e o que são respostas se não o mais puro acalanto para o mistério terrível de simplesmente estar vivo? – e para o qual sabemos, no fundo, não ter resposta nenhuma) é instigar o parecer de cada um que entra naquela sala do Sesc recheada de risos, choros, análises, correções e dedos na cara. Lemos, ouvimos, assistimos o que cada uma das mulheres convidadas pensa da carta (eu particularmente preferi ler as interpretações do que assistir as pessoas relendo a mesma carta com “teatralizações”, achei essa parte chata) mas saímos de lá também com alguma certeza particular. A minha opinião, confesso que metade formada pela visão mais clara de quem “vê de fora”, metade formada pela raiva de quem “já sentiu de dentro tantas vezes” é a de que essa mulher, atrás de problemas para poder criar mais e melhor, acertou em cheio quando escolheu um homem egocêntrico e mulherengo. Este, por sua vez, acertou em cheio quando escolheu uma mulher que alimentaria ainda mais seu ego e vaidade, afinal, milhares de pessoas no mundo lendo um mero e-mail de “ah, não quero mais brincar disso” é o sonho de qualquer escritor metido a sedutor (os angustiados ermitões intelectuais, como só fui descobrir tarde demais, transam com muito mais mulheres que os rapazes felizes e sociáveis sacolejando em festas). Um merecia o outro, como, de fato é, no fundo, o que quase sempre acontece.

Sophie disse, novamente na FLIP, que ficou na dúvida quando leu o e-mail de Greg (tô íntima já, afinal, Greg me lembrou um pouco de cada história de amor que vivi). Ela queria saber se existia alguma abertura para voltar, alguma brecha, era realmente um fora ou não? Ver uma artista plástica reconhecida mundialmente e com muitos anos à minha frente pensar coisas inocentes, típicas de mulher preterida, chega a ser “fofo”, pra não dizer “reconfortante”. Sempre achamos que sobra uma “abertura”. Sim, Sophie, claro que ele deixou as portas abertas, afinal, sexo é algo para o qual um homem estará sempre disponível! Já levar seu cachorro no veterinário com você às oito da manhã, ver o Oscar dublado pela Globo ou ser fiel são coisas muito diferentes.

Das interpretações, as que mais me marcaram foram da mãe da própria artista (“minha filha, uma mulher bonita e talentosa como você, não precisa sofrer…”- ou seja: o que qualquer mãe diria!), de uma adolescente que escreveu um curto e grosso “esse cara se acha” (e disse toda a verdade), de uma advogada que fez um paralelo entre as relações humanas e os contratos (o que a princípio pode ser terrível de imaginar, mas pense: é colocando limites e desejos que nos relacionamos), de uma consultora de etiqueta que arremata “uma mulher não precisa pedir fidelidade, o homem deve, se realmente a amar e querer, garantir que esse é o mínimo a oferecer” e de uma jogadora de xadrez que levanta a questão de que peças imprevisíveis são as que realmente movimentam um jogo.

Algumas mulheres acreditam que Greg deu o fora por e-mail porque se tivesse falado na cara de Sophie, talvez tivesse caído em seus braços e preferido ficar. Outras que ele não passa de um covarde. Eu acho somente que o maior pavor de um homem é ver uma mulher triste por sua causa, daí a preferência pelo aviso a distância. Cruel seria ele sentir prazer com as lágrimas da mulher (como muitas mulheres sentem ao ver homens se descabelando por elas). E em se tratando de um escritor, ele certamente lida melhor com as palavras escritas, outro motivo plausível para uma carta (se fosse carta a pedindo em casamento ninguém reclamava de não ser ao vivo!). Não defendo o cara mas também me irrita quem joga pedras nele como fez a “atriz-palhaça”, por exemplo, que zomba o tempo todo do que Greg diz, como se ele fosse o maior enrolador. Dar um fora não é coisa fácil e contornar o não com palavras bonitas e uma ou outra dose de “eu sou apenas um coitado incapaz de amar” não é exatamente digno de ódio. A raiva que todas nós sentimos do Greg de Sophie e de nossos “Gregs” não é pelo o que eles disseram ou escreveram, mas pelo o que eles deixaram de sentir. E quanto a isso, não resta nada a fazer. Ou resta, como nos mostra essa artista.

Meu “bode” de Sophie passou. Ao contrário das pessoas que se incomodaram com o trabalho dela pelo grau de “exposição” a que ela levou o autor da carta (quem conhece meu trabalho sabe que somente pude adorar essa parte), eu me incomodava pelo fato de que ela, diferente das 107 pessoas convidadas, não deu sua opinião. Mas isso não é verdade. A opinião de Sophie está mais do que dada, ao menos para mim, ela quis dizer: “além de não morrer pela falta de um homem, eu ainda vivo disso!”. Ou ainda: “tornando a minha vergonha pública eu posso me envaidecer da mesma, a transformando completamente”. O único erro de Sophie, certamente proposital, foi o de ter pedido ajuda para mulheres, tão perdidas na arte de entender a simplicidade masculina (no caso de Greg super bem disfarçada de angústia existencial) quanto a artista. Homens teriam dito logo “ele tava comendo outra e gostando, mas se pudesse te comer a cada quatorze dias também, não ia reclamar. Te avisou por consideração e isso não é hombridade, isso é apenas o mínimo a fazer pois você é uma tia francesa bem da gente boa”.

Fui com a minha mãe, que acompanhou todos os textos e vídeos na maior concentração e ao final também deu a sua sempre afiada interpretação “esse desassossego a que ele se refere é só fogo no rabo, minha filha”.

sábado, 29 de agosto de 2009

Da Coleção "Rapidinhas e bizarras"

Assunto de hoje: A Saúde em São Paulo

(!?) 1- O CAPS infantil de Santana, gerido pela SPDM/ UNIFESP foi inaugurado na modalidade CAPS III, ou seja: contando com leitos-noite para internação.

(!?) 2- O CAPS do Ipiranga abriu as portas para atendimento em maio como CAPS adulto e, dois meses depois, já em funcionamento e dias antes da visita do Sr. Prefeito para a inauguração oficial, foi transformado em CAPS alcool e drogas mantendo - por conta da já existência de pacientes com transtornos mentais severos e sem problemas de dependência química em tratamento no serviço - um tipo de nova modalidade chamada pela SPDM de "mista".


(!?) 3- A prefeitura assinou há poucas semanas um contrato de gestão distrital de Zona Oeste com a Organização Social Fundação Faculdade de Medicina onde não consta mais o Centro de Saúde Escola do Butantã (ligado à própria USP), os trabalhadores, inconformados, foram acalmados pelas autoridades com a certeza de que o Centro de Saúde continuará existindo, dado o contrato que foi publicado no diário oficial. Lendo o diário oficial todos perceberam: o contrato publicado não é igual ao realmente assinado por ambas as partes.

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

Da Coleção "Alguma coisa está mudando"

Saber amar,
é saber deixar alguém te amar?

quinta-feira, 27 de agosto de 2009


Nos demais, todo mundo sabe,

o coração tem moradia certa,

fica bem aqui no meio do peito,

mas comigo a anatomia ficou louca,

sou todo coração.


(Maiakovski)

terça-feira, 25 de agosto de 2009


"Quando a gente dorme, vira de tudo:

vira pedras, vira flor."

(Guimarães)

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

I-pê-zão amarelo

"Éramos nós
Estreitos nós...
Enquanto tu
És laço frouxo."

Chico Buarque de Holanda

Ele, de repente, resolveu tomar outro rumo. O caminho usual era de apenas um quarteirão até o metrô. Depois, sem usar objetivamente o trem, pegava a Ponte Orca até a linha de outra cor (vermelha), dai sim, agora, o trem, até o Marechal. Lá descia e, mais um quarteirão, estava em casa.
Naquele dia não. Passou a plataforma óbvia da Orca e seguiu rua acima. A rua tinha nome de alguma coisa de índio, conhecido nome. Não andava por aquela rua há dois anos. Ela não dava mesmo muito acesso a lugar nenhum e quando, excepcionalmente, precisava passar por ela, desviava. Havia algumas outras ruas com nomes de outras coisas de índio que serviam aos mesmos destinos.
Ia subindo pensando que ela tinha sido cruel. Fazia apenas um mês que conseguira parar as lágrimas sem fim que ocupavam toda a sessão e ela já lhe mandava goela abaixo aquela insinuação?! Sim, porque ele estava deprimido, mas não tinha ficado idiota: entendeu que ela insinuara que ele sempre soube! E talvez realmente soubesse; não sabendo não teria tido todas aquelas crises de ciúmes, nem teria caído naquele estado de de-pre-ssão. Mas saber e deprimir era uma coisa, ver mensagens de celular e todo o resto era outra, completamente diferente. Disso ele não sabia! Se soubesse teria parado antes. Teria de-pri-mi-do mais ao ponto de não conseguir se arrastar até lá e ver tudo o que viu.
Agora subia a rua. A tal com nome de coisa de índio. Era íngreme e ele, gordo por culpa da de-pre-ssão, cansavasse rápido demais. Subiu bem devagar. Passou pela conhecida casa com janelas de vidros quebrados e pensou que algumas coisas permaneciam abandonadas por muito tempo e, solidário aos pobres de sua cidade e à casa abandonada - mas principalmente compassivo consigo mesmo - pensou que outros poderiam ter ocupado já aquela moradia. Seguiu em frente e meio quarteirão antes do perseguido e inusitado destino já avistou-o, majestoso. Quando esteve lá a última vez, há dois anos, não havia reparado: um estrondoso ipê amarelo - talvez o maior que já havia visto na vida! Florido e colorindo a calçada o ipê lhe fazia lembrar de uma identificação de menino. Sempre gostou dos ipês amarelos, pois achava que estes se pareciam com ele: mirrados, passam desapercebidos durante quase todo tempo. Ele sempre sonhou em um dia surpreender a todos e a si mesmo como o faz o ipê amarelo quando flore. Um dia, desejava, perderia todas as suas folhas, minguaria mais ainda como se fosse morrer e, então, floriria, absoluto. Talvez este tempo fosse logo, talvez sua de-pre-ssão fosse apenas o momento breve que antecede a floração. Continuou andando. Parou metros antes do que achou pararia. Onde deveria existir o que queria ver enxergou apenas:

Quatro suítes, duas vagas na garagem > últimas unidades!!

Um prédio enorme e branco se erguia. Em frente, aquelas salas de corretor de imóveis de apartamentos de luxo - feitas de madeira fina e vidros, bem decoradas, mas imoráveis.
Filha de uma puta, vadia! Pensou. Deve ter tirado uma nota! Mas o que ele poderia querer?! A casa, o terreno, a reforma, os sonhos. Tudo fora sempre mesmo dela. Tudo. Dele eram somente os côrnos e a de-pre-ssão.
Filho de uma puta, cuzão do caralho! Foi o que ele pensou também quando viu a bunda dele e saindo assim, por baixo, inconfundível, as pernas dela. E lembrou no ato de todos os abraços e tapas amigos nas costas que o cuzão havia dado nele. E todos os sorrisos de camaradagem que o filho da puta abriu quando ele, sempre de-pri-mi-do, resolveu sair da empresa para abrir o negócio da sua vida: uma floricultura. Vadia. Foi o que ele pensou quando imaginou todas as brechas que ela deveria ter dado para ele. E todas as sequentes abridas de pernas e as trepadas e as fodas. Cuzão, cuzão, cuzão.
Mas ele não falou destes pensamentos cotidianos à terapeuta. Só tentou começar a falar coisas banais sobre sua história. E o que mais ele podia dizer de si mesmo além dos côrnos e da de-pre-ssão? Inclusive, havia apenas chorado nos primeiros quatro meses de terapia para ela - a filha da puta da terapeuta - saber disso: vá devagar comigo! E agora ela vinha com essa de insinuações!?
E ainda por cima este prédio do caralho! A filha da puta deve ter ganho mesmo muita grana... merda. E não importava que aquela era a casa dos sonhos dela e que ele simplesmente moraria ali. Não importava que o casamento deles fora plano dela e que a roda de samba que havia tocado tivesse tocado um bando de músicas que ele conhecia, mas que não lhe diziam nada. A casa que seria sustentada por ela, que havia sido reformada por ela, comprada por ela, querida por ela deveria estar ali. E não importava tanto o descaso dela com o sonho que não era dele. O que matava era que a filha da puta deveria estar dividindo a grana do sonho que nem sequer era dele com o cuzão que, além de tudo, era milionário.

domingo, 23 de agosto de 2009

Puta que pariu!! Eu vou ser tia!!!

Depois eu elaboro mais isso, por enquanto é só um mixto de estranheza, nervoso e imensa alegria! Porque ela queria e agora é fato: eu vou ser tia!!! Ou, na verdade, mais ainda: eu vou ser madrinha!!!
Vai uma retrospectiva rápida então...








Para relembrar...

Em 22 de Novembro de 2008, eu mesma escrevi:

Sobre a riqueza (e o empobrecimento) da vida

Agora, aqui em casa, fazendo varredura nos blogs de outros alguéns fui afetada por um cheiro delicioso de café feito por algum vizinho próximo. Essa afetação boba me fez lembrar de uma conversa recente que tive com um alguém que sempre me dispara boas idéias, me afeta em bons encontros. Falávamos de casamentos. Na realidade falávamos de como os casamentos vão se tornando relações empobrecidas, repletas de mesmices e de mentiras e omissões.
Eu disse que, na realidade, não sei se são os casamentos que se empobressem, mas que, talvez, os casamentos sejam dispositivos usados para nos desresponsabilizarmos pelo empobrecimento de nossa própria vida. Casar é, muita vezes, ganhar um aval para ter, sem culpa, uma vida pobre, sem graça, mediana.
Ah, casei, sabe como é... trabalhar pra pagar as contas, mulher em casa... é assim mesmo.
Nâo, todo mundo sabe que não é! Necessariamente...
E dai fico pensando como parece que há toda uma tendência geral que nos chama, nos convoca, nos oferece um mil dispositivos para aplacar a culpa de viver uma vida mediana.
1. O trabalho: um ótimo dispositivo de 'desculpa'. Afinal, tem que trabalhar e trabalho é chato mesmo. E trabalho que dá dinheiro, então, é mais chato ainda, mas tudo bem, afinal tem que ganhar dinheiro e, diz a lenda, que é impossível ganhar dinheiro fazendo aquilo em que se acredita e o que se gosta. Voi lá! Uma ótima desculpa para uma vida empobrecida e meio triste: o trabalho.
2. Os namoros e casamentos: a príncipio, pelo menos, as relações amorosas deveriam existir somente e tão somente para nos potencializar, certo? Para ajudar na produção de uma vida mais rica e mais alegre... mentira! Hegemonicamente as relações são usadas para nos ausentarmos de termos que lutar por uma vida potente. O outro vira anestesia da minha vontade, desculpa para não ter que me produzir em minha inteireza, para não ter que buscar quem eu quero ser, para me descomprometer frente à ânsia de buscar uma vida cada vez mais singular e potente. O outro vira meu descanso de mim mesmo e da minha vida. O lugar onde me escondo da minha pobreza e do meu leve tédio com a vida. O casamento e os filhos então! Ou entram como distração para o tédio (ah, vamos ter mais um filho, pode ser animador!) ou entram como mantenedores da mesmidade, da mediocridade. Até as amantes podem entrar neste pacote: caso, me acomodo, entedio, então arrumo uma amante que nenhuma crise cria, pelo contrário, apenas anima meu tédio na medida exata em que não deixa que nada de verdade aconteça.
3. O dinheiro e as coisas materiais: conhecidos dispositivos de produção de mediocridade. Parece que animam meu tédio com a vida - apenas parece! Além disso me levam a querer trabalhar mais e mais, invariavelmente naquile trabalho que me despotencializa. Enfim, tratam-se de pequenas drogas que aliviam as vertigens causadas pela percepção - mesmo inconsciente - de uma vida medíocre.
Mas, não se enganem!
Apesar de ser uma absoluta descrente no bens de consumo como portadores de felicidade, eu não sou uma descrente no trabalho ou nas relações amorosas!! Muito pelo contrário!!!!
Quanto mais me dou conta que não quero que meu trabalho nem que meus encontros amorosos sejam dispositivos de desresponsabilização por uma vida medíocre, mais vejo o que eles podem ser, por outro lado.
Podem ser dispositivos de aumento da minha potência, de instigação para a produção de mim mesma ainda mais singular, podem servir como intercessor para ampliação dos meus mundos, dos meus horizontes, me forçando a ver o que eu retenho e o que eu desprezo dos encontros pelos quais passo.
O trabalho e o amor têm proporcionado, na realidade, os encontros os quais mais me jogam na cara o inevitável e me obrigam a sustentá-lo e, assim, me fazem mais inteligente e mais alegre.
Enfim, só pra dizer que não tolero quem lida com a vida de forma medíocre, mas sigo acreditando piamente na potência dos encontros para produzir vidas mais alegres!

sábado, 22 de agosto de 2009

Detalhes, de casa



Um bando de coisas!!

1. Caos Calmo


Porque o melhor pai do mundo é o meu,
mas o segundo melhor tá no filme!!








2. Jornada Reich no Sedes

Porque eu vou estar lá, morrendo de medo e dando uma palestra!!

O Departamento Reichiano do Instituto Sedes Sapientiae convida-o(a) para participar da XXII Jornada Reich no Sedes Sapientiae, que ocorrerá nos dias 11, 12 e 13 de setembro de 2009.
A inscrição para a participação já esta aberta!
Para mais informações: deptoreich@sedes.org.br.

3. Conferência com Oury

Porque é importante alimentarmos nossos mitos.

SESC Avenida Paulist

Dia(s) 10/09 Quinta, às 19h30.
Jean Oury é psiquiatra. É o fundador, ao lado de Félix Guattari, da clínica psiquiátrica de La Borde, instituição que se propõe uma abordagem singular da loucura, refletindo as teorias de Oury sobre a psiquiatria institucional ("...é preciso "tratar" da instituição, mais do que dos doentes."). Foi aluno e analisando de Jacques Lacan, e freqüentou os grandes nomes da psiquiatria européia (Binswanger, Jaspers, Maldiney, Schotte, Von Weizsäcker). Jean Oury também escreveu muitos livros sobre a relação entre loucura, arte, criação e catástrofe. Atividade gratuita. Retirada de ingressos uma hora antes do início da atividade.

4. Projetos Terapêuticos

Porque eles são mesmo fo-das!!
Desde a fundação de Projetos Terapêuticos, encontramos a articulação em redes como a forma de sustentação necessária à existência. Somos uma instituição de saúde conectada à produção de projetos de vida. Entendemos a saúde como um conceito amplo, que transversaliza os múltiplos planos que constituem o humano, os inclui e os sobrepassa. Sua complexidade não pode ser abarcada por uma única instituição de tratamento ou instância de conhecimento, sob o risco da homogeneização das subjetividades.Nesse sentido, o trabalho clínico que desenvolvemos com pessoas que passaram por graves crises psíquicas amplia-se muito além do interior institucional e dos saberes ali constituídos. Utilizamos a potência articulatória da instituição com o território em toda sua multiplicidade e possibilidade de vínculo. Ao longo de 6 anos de história, a instituição avança clínica, conceitual e politicamente, realizando projetos que se desdobram em intervenções sensíveis no tecido social. Partindo da inclusão como um pressuposto, e do ideal de uma sociedade para todos, buscamos ampliar a idéia da inclusão da loucura para a inclusão da diferença.Projetos Terapêuticos conserva em si a captação dos sonhos, e a evolução da instituição se faz a partir dos sonhos que vão sendo produzidos. Existem em andamento neste momento os seguintes projetos institucionais: Clínica de Projetos, Paz na Diferença, Saúde Mental e Cidadania e Pró-Saúde.


5. Ocupação UEINZZ

Finnegans Ueinzz
SESC Avenida Paulista
09/09 a 20/09.
Quarta a sábado, às 21h. Domingos às 20h.

Mais do que um trabalho performático- teatral , Finnegans Ueinzz está inserido em um caminho artístico ligado a pesquisa contemporânea, existindo e acontecendo sempre no limite da antropologia, da resistência política e da experimentação. Um processo de trabalho completamente inserido no contexto da sensibilidade e das apostas contemporâneas. Inspirado na obra Finnegans Wake, de James Joyce.
R$ 20,00[inteira]

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

O que eu também não entendo


Talvez seja a academia, talvez sejam os programas do People And Arts, o fato é que meu inconsciente deve estar ficando alienado e com mau gosto. A prova foi a dica que ele tentou me passar essa noite. Veio com letra do Rogério Flausino (Yes! Jota Quest yeah yeah!!) e voz do Frejat. Pode dizer: há coisa mais cafona?! Mas, não sou eu mesma que digo que o amor é mesmo a coisa mais cafona do mundo?! Pois é, então vai ela, a dica do inconsciente do mês:


Essa não é mais uma carta de amor
São pensamentos soltos
Traduzidos em palavras
Prá que você possa entender
O que eu também não entendo...

Amar não é ter que ter
Sempre certeza
É aceitar que ninguém
É perfeito prá ninguém
É poder ser você mesmo
E não precisar fingir
É tentar esquecer
E não conseguir fugir, fugir...

Já pensei em te largar
Já olhei tantas vezes pro lado
Mas quando penso em alguém
É por você que fecho os olhos
Sei que nunca fui perfeito
Mas com você eu posso ser
Até eu mesmo
Que você vai entender...

Posso brincar de descobrir
Desenho em nuvens
Posso contar meus pesadelos
E até minhas coisas fúteis
Posso tirar a tua roupa
Posso fazer o que eu quiser
Posso perder o juízo
Mas com você
Eu tô tranquilo, tranquilo...

Agora o que vamos fazer?
Eu também não sei...
Afinal, será que amar
É mesmo tudo?
Se isso não é amor
O que mais pode ser?
Tô aprendendo também...

terça-feira, 18 de agosto de 2009

Out off fashion

Definitivamente não está na moda falar sobre a morte. A velhice tudo bem, até que anda entrando nos noticiários e nas propagandas, mas não a velhice que morre. A que aparece é aquela sorridente, sem rugas, não a velhice vizinha do fim e sim aquela tal da melhor-idade. Aqui peço licença para falar da outra, não pior, mas nem por isso melhor. Resolvi escrever disso depois que a Fê Vargas (http://ameninaquemijounopedeflor.blogspot.com/) me relembrou de uma história, inesquecível história sobre a morte, que requer uma longuissima introdução que estou morrendo de vontade de narrar. Então vamos a ela.
Aos dezessete anos aproximei-me da velhice. Eu, filha de pais que nunca envelhecem, escolhi desviar da tendência adolescente de passar férias entre jovens e na farra para - no tempo que podia assim fazê-lo - estar com meus avós maternos.
Meu avô era Ângelo e minha avó Martha. Passaram a segunda metade da vida na casa da foto ai embaixo. Av. Carlos Mauro, Águas de São Pedro - até onde eu sabia o menor município do Brasil. Mudaram para lá em 1949 logo depois de se casarem aqui em São Paulo.
Ele nascido na Espanha e crescido no Guaçu - como gostava de dizer referindo-se à Mogi Guaçu. Ela nasceu em Brotas, mas criou-se mesmo em São Paulo. Conheceram-se porque o sítio no Guaçu era vizinho da fazendo de uns tios da minha avó e as crianças da família da minha avó (cheia de posses e pompa!) pulavam a cerca e iam comer as uvas que a família do meu avô (imigrante e bem pobre!) plantava para fazer vinho e, assim, sobreviver. Foi por causa da evolução destas puladas de cerca em uma boa e firme amizade que, quando jovem, já estudante de medicina da Escola Paulista, meu avô acabou morando uns tempos na casa da madrinha da minha avó. Essa casa ficava na Av. Dr. Arnaldo em frente à casa onde morava Martha (minha vózinha), Bernadete (irmã mais velha dela) e Eleodora (mãe das duas e minha bisa). Bom, está assim explicado o encontro dos dois personagens principais desta história e talvez o nascimento do amor deles, se bem que não explicada a oficialização de tudo isso.
E assim foi: minha avó trabalhava no DER (Departamento de Estradas de Rodagem) quando começou a perceber meu avô todos os dias em frente ao prédio, bem na hora da sua saída. No início seu gênio forte maltratou o coitado, ignorando o fato óbvio da sua aproximação e fechando todas as portas que permitissem a oficial declaração. Ele a acompanhava até o ponto de ônibus, fingindo a casualidade do encontro. Até que um dia o pobre se declarou, com um sonho de valsa nas mãos ignorou o zelador gênio ruim e arrombou a porta dizendo da absoluta premeditação de tais rendez vous.

Namoraram quatro anos, trocaram muitas cartas (hoje minha melhor herança!!) e casaram-se em 49 sem pompas. Ao meu avô já havia sido oferecido o cargo de médico do balneário de Águas de São Pedro. A oferta partiu do fundador-construtor do balneário municipal, do Grande Hotel e, na realidade, dono da cidade: Tio Otávio - no caso tio da minha avó. Meu avô aceitou e partiu, antes mesmo do casamento, para assumir seu posto. As águas sulfurosas eram sensação naqueles tempos. Curavam de tudo: acalmavam nervos, renovavam as peles, equilibravam as pressões. Meu avô tornou-se, então, médico do balneário, dos hóspedes milionários do Grande Hotel, mas também de todo o resto da cidade: dos roceiros, dos trabalhadores, dos fazendeiros. Tratou de artistas, políticos e ricássos. Tornou-se até mesmo amigo do Roberto Carlos - sim, o Rei. Acabou sendo prefeito da cidade por três vezes e vereador por nove.
Minha avó enquanto isso cuidava da casa e construia um pequeno hotel - Villa Hotel - que seria o real grande ganha pão da família. Ah sim, ela também tinha filhos! Cinco gestações, três filhos de sangue e mais uma de criação. Quando já estavam grandes acabou a construção da casa da foto. Mudaram-se, então, da chamada casa velha (emprestada que era pela Prefeitura para eles morarem) para a casa nova. E é do que se passou nela, muitos anos depois, que quero falar.
Já idosos meus avôs acolheram na casa minha tia-avó Bernadete, ou Dete, como sempre a conheci. Ela veio morar com eles, deixando a casa da Dr. Arnaldo vazia, pois começou já muito cedo a apresentar sintomas clássicos de Alzheimer. Quando mudou-se em definitivo para lá eu devia ter uns 18 anos e lembro-me claramente da minha estranheza. Passava as férias quase todas lá, sozinha com meus avós. Toda vez que cruzava ela no corredor era a mesma coisa:
- Oh! Tem gente nova na casa! Quem é você?
- A Ju, Dete. Filha mais nova da Marthinha.
- Ah sim!! Oi Juliana! Não comprimenta mais sua tia?!
E dez minutos depois, se a encontrasse de novo, a mesma pergunta, a mesma bronca por não tê-la comprimentado... durante todos os dias das férias inteira!
Foi a Dete a primeira a morrer. Era Julho e eu estava passando uma semana em Águas. Meu avô já estava muito doente há um ano mais ou menos. Ele ficou doente de uma hora para outra, provavelmente um derrame. Ele tinha 80 anos quando parou de andar, foi falando cada vez menos, no final estava comendo por sonda e sem reconhecer ninguém a não ser minha avó, seu amor incondicional até o último dia da vida. Minha avó tinha uns 85 anos e absolutamente lúcida, apesar de fisicamente acabadinha e muito triste com a condição do meu avô. Acordamos de manhã e a Dete estava mal. Falta de ar. Chamamos o médico do Posto de Saúde que acompanhava ela e ele veio. Em seguida já ligou para o meu tio que é médico e niguém sabe ao certo o que eles conversaram, mas meu tio nos avisou que ela estava mal e poderia viver só mais alguns dias. Durante o dia ela foi piorando e o médico veio de novo. De novo ligou para o Tio Ique e foi dada a orientação: era para dar um calmante para ela e esperar. Ele orientou claramente a todo mundo que não a mandássemos ao hospital: ela seria internada, entubada e de nada adiantaria. A hora dela tinha chegado, precisávamos acolher isso, acalmá-la e esperar. Foi isso que tentamos fazer. Minha mãe e minha tia estavam nervosas, andavam de um lado para o outro. A Dete parecia agitar-se junto com a gente. Foi ai que alguém lembrou de chamar a irmã de criação da minha mãe (Anastácia). Ela é católica fervorosa, daquelas que tem até permissão paroquial de levar a óstia nas regiões mais distantes na roça. Ela chegou já de terço em punho e chamou a todos nós para rezarmos com a Dete. Eu, que mal sei rezar dessas rezas cristãs, me juntei ao grupo inseguro. Rezamos um rosário completo. O rosário contava a cada dez ave-maria um pedaço da história da morte de Jesus. E, conforme a história ia se desenvolvendo e a morte ia ficando mais próxima, a agonia da minha tia-avó ia diminuindo. Não diminuia sua falta de ar, mas, impressionantemente, ela ia ficando mais tranquila com a chegada do fim. Eu nunca acreditaria nisso se não tivesse visto - acreditem vocês se quiserem -, mas ela morreu logo após a última ave-maria do último mistério. Foi a primeira e única pessoa que vi morrer, assim na minha frente e tenho certeza que isso mudou pra sempre o modo como encaro a morte.
Um ano e pouco depois dela foi meu avô. Acordou morto, morreu dormindo na sua cama de três anos de acamado. Quando as empregadas foram acordar minha avó para prepará-la para a notícia ela já abriu os olhos dizendo:
- Quem foi embora?
E a Maria, enfermeira, não entendo:
- Como assim, Dona Martha?
- Quem foi embora? Alguém veio à pouco se despedir... me deu um abraço porque estava indo embora. Foi um abraço tão bom.
A Maria não conseguiu segurar o choro, outra pessoa teve que dar a notícia à minha avó. No enterro ela chorou muito, dizia que queria morrer também, de repente - bem do jeito dela - parou de chorar e disse alto, meio fazendo piada:
- Não, acho que vou ficar viúva uns dois anos...
E foi o que ela fez. Dois anos depois, pouco antes de completar 90 acho que ela começou a ficar cansada. Numa semana não andou mais. Na seguinte parou de conversar. Na última semana que viveu ela já não abria mais os olhos. Nunca vi ninguém viver com tanta autonomia e decisão como a minha avó. E ela não deixou de assim fazer também na hora da morte. Eu só sinto de não ter estado lá quando ela se foi. Acho que foi por isso que, no caixão, ela me parecia ainda assim, tão viva.

domingo, 16 de agosto de 2009

Ewá

Ewá é a divindade do canto, das coisas alegres e vivas. Dona de raro encanto e beleza, é considerada como a Rainha das mutações, das transformações orgânicas e inorgânicas. É o Orixá que transforma a água de seu estado liquido para o gasoso, gerando nuvens e chuvas.

Quando olhamos para o céu e vemos as nuvens formando, às vezes, figuras de animais, de pessoas ou objetos, não nos importamos muito. Porém, ali está Ewá, Rainha da beleza, evoluindo solta pelos céus, encantando e desenhando por cima do azul celeste da atmosfera da Terá. Ewá é também o inicio da chuva, regida por sua mãe Nanã. Este seu principal encantamento: o ciclo interminável de transformação da água em seus diversos estado, incluindo o sólido. Ela, como todos os outros, está entre nos no cotidiano, convivendo e influenciando nosso comportamento, mexendo com nosso destino, gerando situações que vamos viver diariamente.

Ewá também esta ligada às transformações orgânicas e inorgânicas, que se sucedem no Planeta. É a mágica da transformação. Está ligada à mutação dos animais e vegetais. Ela é o desabrochar de um botão de rosa; é a lagarta que se transforma em borboleta; é a água que vira gelo e o gelo que vira água; faz e desfaz, num verdadeiro balé da Natureza.

Senhora do belo, Ewá é aquela que vai dar cor ao seres; torná-los bonitos, vivos, estimulando a sensibilidade; a fragilidade das coisas; a transformação das células, gerando o que há de mais lindo no mundo. É a deusa da beleza; é o sentimento de prazer pelo que é belo,; é o respeito pela maravilha que o mundo apresenta.

A força natural Ewá é ligada também à alegria, dividindo com Vungi (Ibeji) a regência daquilo que se chama ou se tem como feliz. Está presente nas coisas e nos momentos alegres, que têm vida.

É também a divindade do canto; da música; dos sons da natureza, que enchem nossos ouvidos de alegria e contentamento. Está presente no canto dos pássaros; no correr dos rios; no barulho das folhas, sopradas ao vento; na queda da chuva; no assovio dos ventos; na música interpretada por uma criança, no choro do bebê, no canto mais que sagrado da mãe Natureza.

Ewá é a própria beleza. É o som que encanta. É o canto da alegria. É a transformação do mal para o bom. É a vida...

Mitologia

Ewá é filha de Nanã, irmã de Obaluaê, Ossãe e gêmea de Oxumarê. Apesar de gêmea, foi a segunda a nascer sendo, assim a caçula dos filhos de Nanã. Cada um dos filhos regia algo: Obaluaê, as pestes e moléstia contagiosas; Ossãe, as ervas, as plantas e seus segredos e mistérios; Oxumarê, o arco íris, a riqueza.

Ewá nada regia. Era apenas uma menininha bonita, formosa, cheia de encantos. E assim cresceu, bela e de brilho intenso.

Pouco a pouco, os homens foram se interessando por ela, tal era a sua beleza. Muitos pretendente chegavam, de todas as partes, com a intenção de desposar Ewá, pois usa beleza era tão grande que sua fama chegou a todos os reinos.

Em pouco tempo o reino de Nanã estava cheio de supostos noivos, que lutavam entre si para conquistar o coração da jovem Ewá. As lutas foram crescendo e tomando proporções, a ponto de, em cada canto do reino, haver um grupo em luta, com um só objetivo: desposar Ewá, Isso tudo fugiu ao controle de todos, pois o encanto do jovem parecia enfeitiçar os homens, a ponto de matarem-se uns aos outros.

A situação já passara dos limites e os pretendentes, que não paravam de chegar, foram até a própria Ewá, obrigando-a a escolher um deles. Isto acontecia aos gritos, empurrões, exibições de força e poder, cobranças violentas, barulho, levando a jovem a um desespero que jamais sentira.

A pressão foi tão grande, mas tão grande que, de repente, ouviu-se um grande estrondo. Todos se calaram, voltaram-se para Ewá e ficaram imóveis, estáticos, e de olhos arregalados com o que estavam vendo.

Ewá, impossibilitada de escolher um noivo, e atormentada por ver tanta morte e confusão por sua causa, começou a se transformar. Como um reflexo do sol, sua silhueta começou a perder a forma, até que restou apenas um poça d’água no chão. Aos poucos, aquela poça foi evaporando e subindo em direção ao céu. Os homens, pretendentes, não se moviam, só acompanhavam a evaporação, bem visível e o vapor subindo.

Em pouco tempo uma enorme nuvem branca, contrastando com o azul-claro do céu, foi desenhando um coração, numa visão de raríssima beleza. Ewá não se casou com ninguém, mas colocou na mente dos homens que o amor nasce naturalmente, não com disputas e guerras.

Assim, Ewá transformou-se e recebeu o poder de ir ao céu , como nuvem e voltar à terra, como água, permanecendo como o símbolo da beleza, do canto e da alegria.

sábado, 15 de agosto de 2009

Vâmo?!

Improvisado#32 + AndreiaDias
Dia 21 de agosto, sexta-feira, teremos mais uma edição do Improvisado. Dessa vez teremos a participação especial de Andreia Dias. Além disso teremos Achiles Luciano pintando digitalmente, e outras novidades que em breve divulgaremos.


21 / agosto - Sexta - 21:00 Hs (o show 22:00)
Avenida Francisco Matarazzo, 2000 – Veja o Mapa
Couvert: R$ 10,00 (contribuição mínima sugerida)

Entre vivos e mortos...

... sobraram apenas espinhos.







sexta-feira, 14 de agosto de 2009


O vento, num dia radioso, certa vez chamou.

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

Desejos

De brigadeiro na colher.
De filme bom, com boas idéias, deitada num bom edredon.
De uma boa roda de samba.
De cerveja com petisco no meio da tarde de domingo, com sol!
De sorvete de chocolate com pedacinho de chocolate.
De cozinhar há quatro mãos e funcionar.
De mãos dadas.
De dançar junto e ser bom.
De falar, falar e falar e o assunto nunca terminar.
De ficar em silêncio com tranquilidade.
E, claro, de me fazerem ter ataque de riso. E eu rir, sem vergonha.

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

Da Coleção: Para se ser mais o que se é

Domingo, 19 de Julho de 2009

Filho da Puta
[Eu ia sair, num devir da vida pratica.... Mas resolvi tomar mais um cha e escrever.]
Filho-da-Puta!
Foi a ultima palavra que ela disse, olhando para o telefone. Ele nao ouviu. Telefone nao eh telepatia. Tem que discar pra ouvir. E ela nao ia discar. Ele nao ia ligar. Era um acordo, que ficava claro com o passar dos dias.
Filho da puta. Ela pensou. Comecou a rabiscar qualquer coisa em um pedaco de papel. Parecia que ia mandar uma carta. Um email. Sei la. Mas o que dizer?
Ela estava enfurecida, tomada de odio. Mentira. Ja nao estava mais com tata raiva. Estava triste. Mentira tambem. Ja nao estava mais tao triste. Estava sim era inconformada, preocupada, culpada e todos os adas perversos que assombram mulheres como ela.
Ela o conheceu num bar de playboy da vila olimpia. Ela nao costuma levar seus tenis coloridos para estes lugares, mas era um festa de aniversario, entao por que nao? Foi e ele estava la, com seu jeans da diesel, num canto tomando um whisky com gelo, rindo com os amigos. Saca aqueles playboys descolados? Era ele, um tipo que chama atencao aonde quer que va. Um tipo que sabe que chama atencao aonde quer que va. Um tipo perigoso, diriam. Ela, bom ela estava la, com um dos seus tenis coloridos. E ela nao era um tipo que um tipo daqueles olharia, sabe? Mas acontece que, nao sei se era solsticio de verao ou qualquer outra raridade dessas, ele olhou pra ela. Olhou, olhou, olhou. Olhou mais. E olhou tanto, que ate ela notou. Notou, se envaideceu, ficou timida e quis fugir. Tarde demais, ele ja estava ao lado dela. Ele, seu jeans da diesel e seu whisky caro. E ela ali, com mais um copo de chopp e seu tenis colorido. E ele era ainda mais ele de perto.
E sairam dali e pensaram que nao daria tempo de chegarem ao apartamento chique dele, aonde transaram loucamente ate o dia amanhecer. E nenhum deles virou abobora. Nem ela gata borralheira. Mas ele tinha toda a vocacao para ser aquele cara do cavalo branco que a gente vive dizendo que nao quer, que nao existe, mas morre de vontade de conhecer.
E no dia seguinte o telefone tocou, e no outro dia tambem. E foi assim por uns meses. E parecia mesmo que os tenis coloridos e o jeans da diesel faziam um par perfeito, deliciosamente amarrotados, jogados pelos cantos do quarto chique do apartamento chique dele.
Ate que um dia o telefone nao tocou mais.
Assim, sem mais nem menos.
Nao tocou.
No primeiro dia ela respirou fundo e disse a si mesma que era normal.
No segundo dia ela voltou a respirar fundo. 18 vezes. E isto nao era nada normal.
No terceiro dia ela pegou seu livro do Dostoievisk e comecou a ler, displicentemente, como se nao esperasse nada. E nada mesmo aconteceu.
No quarto dia, ela ligou. Puta. E a gravacao informava que aquele numero nao exisitia. Ligou no outro numero, e so falou com a caixa postal. Estava irada. Morrendo de saudades.
No quinto dia ela pensou em suicidio. Pensou em largar tudo e se mudar para a Nova Zelandia, comecar tudo novo la. Ela nao estava mais puta. Estava triste.
No sexto dia ela beijou um outro rapaz. E tudo lhe pareceu vago. Vago. Um lugar vago.
Uma semana depois, ela ja nao estava mais triste, nem brava, nem nada. Estava inconformada, sem compreender o que tinha se passado. Desde o inicio, ela diria. Que aparicao mais bizarra esta na minha vida, ela dizia. Se perguntava se havia sido real. Se ela era real. Fala serio, que cara mais maluco, ela falava enquanto tomava o 3 copo de cerveja e dizia que o mundo estava perdido. Eu ria dela, mas ela me ignorava e continuava a dizer que o mundo estava perdido, que mal tinha ligar e dizer que nao queria mais? Sera que o cara havia morrido, sumido no mundo? Nada, nada! Nao sabia nada, ela dizia. Sabe, ela disse e continou "nao era uma questao de querer ou nao querer a mim, era uma questao basica de educacao. De lembrar que tinha uma outra pessoa ali, sabe? Nao precisava se importar comigo, tinha que importar com o contrato social. Educacao basica. Mas o mundo esta perdido. E ninguem mais tem mae em casa pra ensinar a ter boas maneiras e educacao. Ligar depois eh uma questao de boas maneiras. Eu tenho boas maneiras. Mas ele nao tem. Ele nao devia ter mae. Entao posso chamar ele de filho da puta sem peso na consciencia de estar envolvendo uma inocente na historia. Eh isto, ele eh um filho da puta, mas sem puta pra ensinar a ele que ate na putaria a gente tem q ter educacao". Eu ria, e pedia mais uma cerveja, enquanto ela descorria seu inconformismo.
E filho da puta, olhando para o telefone, foi a ultima coisa que ela disse sobre ele.
Foi a ultima coisa e ali ela o enterrou, junto com seu maldito jeans da diesel e seu whisky ridiculo. Cavou os 7 palmos e jogou ali tambem os cavalos brancos que cagavam por todo o apartamento dela. Aff... Fim. Morto. Sepultado. Cuspio e disse com a boca cheia um fo-da-se filho-da-puta, daqueles que a gente fala com gosto quando o time dos outros faz gol. E dai enterrou mesmo. Com direito a velorio, caixao e tudo mais. E entao amassou aquele papel em que rabisca qualquer coisa imbecil e saiu andando calmamente, sem olhar para tras, trajando seus tenis coloridos mais coloridos. Pq estes, estes eram dela. E como eram. Dela. Ela. E isto, ninguem tirava.
F.L. - pq ela, ela eh dela!
Postado por F. L. às 14:06
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